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domingo, 18 de março de 2018

Dia do Pai



Para onde nem os versos podem ir

Em dias como este, pai, dá-me
para ir conversar contigo, eu sei,
exausto que ando de tudo o que é mesquinho.
Lá no fundo está o mar
em que tu me ensinaste a distinguir
os cargueiros e os petroleiros,
separando o norte do sul
e o leste do oeste. Marinheiro não fui,
embora mil vezes tenha sentido
a avassaladora tentação do mar.
Poeta sim, que os poetas têm o direito
de desenhar mapas imaginários
onde os outros inventaram cidades tristes
com corvos dentro carpindo a mágoa dos vencidos.

Tu estás imóvel, atrás de uma pedra, pai,
mas eu consigo ouvir a tua voz, em nós,
e o silvo do teu assobio chamando os pássaros
e os cães nos primeiros dias de junho.
Quem me dera poder escrever
nesse rectângulo frio todas as palavras
que um filho sabe usar
para trazer um pai de volta à vida,
nem que seja para partirem juntos
para onde nem os versos podem ir.

José Jorge Letria, in "Tristes tópicos"


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Boas Festas

A biblioteca deseja a todos um bom Natal e um Ano Novo muito feliz.                                     
Lembramos que um livro é sempre uma bonita prenda de Natal.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Natal com poesia

Natal Africano

Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz… Mas é Natal!

Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.

Nem luzes, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.


Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.

 João Cabral do Nascimento, Obra Poética

O Presépio - arte popular tanzaniana

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Outono



Outono

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

                                  Miguel Torga
Do livro: Diário X, s/editora, 1966, Coimbra

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Poema do Mês

Árvore

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,
envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros
E tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com muitas borboletas.

Manoel de Barros (1916 – 2014), poeta brasileiro.

domingo, 7 de maio de 2017

Dia da Mãe

  Pequeno Poema

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais…
 Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém…

Pra que o dia fosse enorme,
 bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe.


Sebastião da Gama, in “Serra-Mãe.”


terça-feira, 7 de março de 2017

8 de Março - Dia Internacional da Mulher

Mulheres



Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.
Elas brigam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se para injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.
Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poder tê-los.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.
Elas choram quando suas crianças adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prémios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversário ou um novo casamento.
Seus corações quebram quando seus amigos morrem.
Elas lamentam-se com a perda de um membro da família,
contudo são fortes quando elas pensam que não há mais força.
Elas sabem que um abraço e um beijo podem curar um coração quebrado.
O coração de uma mulher é o que faz o mundo girar!

Mulheres fazem mais do que dar a vida.
Elas trazem alegria e esperança.
Elas dão compaixão e ideais.
Elas dão apoio moral para sua família e amigos.
Mulheres têm muito a dizer e muito a dar.
Pablo Neruda

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Rómulo de Carvalho.....António Gedeão

Impressão digital
"Os meus olhos são uns olhos, 
e é com esses olhos uns 
que eu vejo no mundo escolhos, 
onde outros, com outros olhos, 
não vêem escolhos nenhuns. 

Quem diz escolhos, diz flores! 
De tudo o mesmo se diz! 
Onde uns vêem luto e dores, 
uns outros descobrem cores 
do mais formoso matiz. 

Pelas ruas e estradas 
onde passa tanta gente, 
uns vêem pedras pisadas, 
mas outros gnomos e fadas 
num halo resplandecente!! 

Inútil seguir vizinhos, 
querer ser depois ou ser antes. 
Cada um é seus caminhos! 
Onde Sancho vê moinhos, 
D.Quixote vê gigantes. 

Vê moinhos? São moinhos! 
Vê gigantes? São gigantes!"

António Gedeão, in Movimento Perpétuo

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Parabéns, Eugénio de Andrade

                                                         
                                              

                                                                 O Pastor

                                                          Pastor, pastorinho,
                                                          onde vais sozinho?

                                                          Vou aquela serra
                                                          buscar uma ovelha.

                                                          Porque vais sozinho,
                                                          pastor, pastorinho?

                                                          Não tenho ninguém
                                                          que me queira bem.

                                                           Não tens um amigo?
                                                           Deixa-me ir contigo.


                                                   Eugénio de Andrade, in  Aquela Nuvem e Outra.

Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontainhas, nasceu a 19 de janeiro de 1923 em Póvoa da Atalaia no Fundão. Faleceu no Porto, cidade onde trabalhou e escreveu.






quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

E bom ano 2017


E bom ano 2017!

Bom ano apesar da crise.
Bom ano apesar dos cenários
 anunciados de catástrofe.
Bom ano apesar dos cortes.

Bom ano.
Bom ano contra a crise.
Bom ano contra o desespero.
Bom ano contra a tristeza.
Bom ano contra a resmunguice.
Bom ano contra a maledicência.

E um ano 2017 cheio de ideias.
De sonhos.
De projetos.
De novos caminhos.
De esperança.

Um ano para dizer sim a quem se
 gosta.
Um ano para contar histórias.
Um ano para passear à beira rio.
Um ano para conhecer um jardim.
Um ano para estar com a família.
Um ano para sentir o sol na cara.
Um ano para reconhecer os amigos.
Um ano para ler mais.
Um ano para dar abraços.
Um ano para ouvir novos sons.
Um ano para visitar bibliotecas.
Um ano para descobrir novas
 palavras.

Um ano para pensar mais.
Um ano para viver mais.
Um ano para ser mais.

  Francisca Cunha Rego (adaptado)



segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Poema do mês

                                 
 LEVAVA EU UM JARRINHO
                           
                      
Levava eu um jarrinho
P’ra ir buscar vinho;
Levava um tostão
P’ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia. 
                                                                                               
                                         FERNANDO PESSOA, in Quadras ao Gosto Popular

domingo, 18 de setembro de 2016

Recomeçar

Sísifo

Recomeça….
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…


Miguel Torga, Diário XIII  

segunda-feira, 25 de abril de 2016

25 de abril


     25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

História Antiga

HISTÓRIA ANTIGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.


Miguel Torga (1907  - 1995)

quarta-feira, 18 de março de 2015

Dia do Pai, Dia de São José





na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo,
seremos sempre CINCO.


José Luís Peixoto, “A Criança em Ruínas”, 2001.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Luísa Dacosta


Biografia

Luísa Dacosta era o pseudónimo de Maria Luísa Pinto dos Santos. Nasceu em 16 de fevereiro de 1927 em Vila Real e faleceu em Matosinhos em 15 de fevereiro de 2015. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa onde se formou em Ciências Histórico-Filosóficas. Foi professora do ciclo preparatório na escola Ramalho Ortigão e Francisco Torrinha na cidade do Porto. Além de professora e tradutora, foi uma escritora  sensível à situação da mulher e da criança. "O Perfume do Sonho, na Tarde, "A Rapariga e o Sonho", "O Elefante Cor de Rosa", "História com Recadinho" e "Robertices" são algumas das obras, histórias, que se podem encontrar nas bibliotecas do agrupamento.



Se eu tivesse um carro
havia de conhecer
toda a terra.
Se eu tivesse um barco
havia de conhecer
todo o mar.
Se eu tivesse um avião
havia de conhecer
todo o céu.
Tens duas pernas
e ainda não conheces
a gente da tua rua.

Luísa Dacosta

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Receita de Ano Novo

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ver,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra
birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta ou recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987), poeta e contista brasileiro


terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Receita de Ano Novo


Receita de Ano Novo
 


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir -a -ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano -novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987) poeta e escritor brasileiro